Culpa & Castigo

Reflexões sobre o filme "A Baleia" dirigido por Darren Aronofsky

INSIGHTS REFLEXIVOS

Álvaro de Matos

3/28/20234 min read

Não sou muito de ir ao cinema, por total falta de foco e falta de tempo. Mas aprecio. E quando surgiu a oportunidade, eu estava antenado e fui ver um filme em cartaz, "A Baleia", antes dele ganhar premiações.

Já falo de antemão que vão ter spoilers e que não vai ter nenhuma análise técnica da arte de fazer cinema. Então, se você ainda não viu o filme, sugiro que primeiro você assista e depois venha trocar umas ideias comigo.

O filme, do norte americano Darren Aronofsky, é uma adaptação de uma peça teatral do também estadunidense Samuel D. Hunter. E, como toda peça teatral, o foco do filme se concentra nas atuações dos atores. E eles seguram bem o rojão. Percebe-se que há, em destaque à personagem principal, uma autêntica entrega.

Entrega.

Esse é o ponto principal do filme e, mesmo que isso não seja colocado, há implicitamente um pensamento que me norteou vendo-o. Toda e qualquer pessoa que não se cuida, por culpa, adquire sobrepeso? Há relação entre saúde emocional e magreza? Necessariamente uma pessoa gorda é uma pessoa que carrega culpa?

Então necessariamente quem está bem fisicamente não tem culpa, não se pune? Não. Cada pessoa reage de uma forma. Não há essa relação direta, nem é bom darmos essa generalização. Conheço pessoalmente algumas pessoas e vejo algumas celebridades que não estão bem consigo, inclusive se acham um engodo e internamente se desprezam, e têm um corpo bem definido.

Um exemplo disso é o ator que interpreta a personagem obesa, Brendan Fraser. Ele, que sofreu assédio sexual, se culpou por não ter reagido da forma que ele acredita que deveria ter agido, e, com a sua masculinidade ferida, espalhou o ocorrido aos quatro cantos. Mas a reação foi de descrédito e antipatia. Era somente uma brincadeira. Ele ficou no vácuo. Um silêncio ruidoso. Ele entrou na lista negra de Hollywood. Caiu numa depressão profunda. Passou por várias cirurgias. Teve divórcio. Brigas por patrimônio. Ficou praticamente falido. Foi ao fundo do poço.  

A personagem central, Charlie, não tinha sobrepeso, quando investiu na sua felicidade conjugal. Mas ambos não tiveram estrutura para aguentar o peso do apontar dos dedos da sociedade na cara do casal. Ele sente culpa por não ter entendido o drama do parceiro, que morreu por não conseguir lidar com a culpa religiosa e paterna; ele sente culpa por ter abandonado a filha.

Ele se sente culpado. 

Charlie se entregou, deixou a vida de lado, abriu mão dela para ficar no seu mundo interior de peso, culpa e vergonha.

Vergonha ao se esconder dos seus alunos, vergonha por não ir atrás da sua filha. Vergonha que o fez transformar o dinheiro recebido em algo guardado como um salva-conduto, como uma forma de compensar sua ausência no passado e, na ausência planejada, no futuro da filha sem pai. 

As cenas dele comendo não têm nada de se alimentar, mas sim de se afogar, mergulhar e novamente se afogar a cada ingestão de produtos. Mergulhar e se punir, se autoflagelar, com ânsias de ir além do permitido, foram constituindo o corpo obeso em excesso. Foi uma construção persistente e perseverante, em que até o final Charlie manteve.

Ele está sempre pedindo desculpa. Sempre está em falta, sempre está no erro. Mesmo quando ele é ofendido, agredido e mal tratado. Esse padrão consciencial de culpa, em Charlie, fez com que ele tivesse um direcionamento à obesidade mórbida, como forma de autopunição e, quem sabe, de redenção. 

Percebe-se que, mesmo a personagem principal tendo um posicionamento intelectual contra a religião, ela acabou tendo uma vida direcionada por conceitos religiosos ocidentais. Isso é normal. Isso vem da nossa cultura, do nosso inconsciente coletivo e da nossa memória celular.

Como Charlie se julgou, ele se condenou a uma não vida, a uma existência isolada e de sacrifícios, autoimpostos. Ele tão gentil e generoso, foi incapaz de direcionar essas qualidades para si mesmo. 

Você não vai gostar do filme se você busca empatia, sensibilidade e calor humano. Não é também um filme de apologia à obesidade, ou um olhar atencioso para quem sofre com essa situação, tampouco de preconceito a ela. É apenas uma história de uma pessoa que encontrou uma forma de se punir e se sacrificar para que sua filha pudesse perdoá-lo.

Para mim é um filme que impacta. Não há valor em se sacrificar. Não há valor numa vida de dor e sofrimento. Não vejo heroísmo nisso. Para mim houve, tão somente, na vida de Charlie, um desperdício de possibilidades, inclusive de continuidade do desfecho na vida da sua filha e do que eles poderiam viver juntos.

Para fugir do oceano da mágoa, do ressentimento, da culpa e da vergonha e mergulhar no oceano do Amor, é importante ter um olhar generoso para consigo. Ter autoperdão e aceitação.

Não há por onde fugir, enfim, o dedo em riste vem direcionado para gente. Sempre. Ninguém vive a vida sem receber críticas negativas, ofensas e agressões. Elas vêm, fique certo, de uma forma ou de outra e algumas vezes porque você está fazendo o certo. Então, viva a sua vida e trate de ser feliz! Você não veio aqui para atender às expectativas de quem quer que seja.

Desejo para você liberdade e reconexão. Quando sentir o dedo apontado, que possa ter uma reação centrada, de integridade e de amor, sem pedir desculpas.

Álvaro de Matos